12.5.06


Posso chorar junto com você?



Vivi chegou ao internato a contra-gosto. Oriunda de uma família de poucas condições econômicas, mas esbanjadora em afetos, ela não conseguia superar a saudade de casa.
Era uma aluna que parecia nem ter idade para estar na escola, por ser tão pequenina e tão dependente.
Ela nos sensibilizava muito com seu choro incessante, uma tristeza que parecia não ter fim. Eu também estava com muita saudade de meus pais e meus irmãos que moravam na capital e que eu tinha poucas oportunidades de visitar. Necessitava ser forte emocionalmente, o suficiente para conseguir ajudá-la. Mas havia dias em que a carência emocional dela me mobilizava tanto...
_ Posso chorar junto com você Vivi? Perguntei com sinceridade.
_ Buáááááááá!!! Continuou ela, e me abraçou.
_ Buááááá!!!! Chorei junto com ela.
O abraço se tornou ainda mais forte!
Lembrei de Jesus diante do momento triste de Marta e Maria, com a morte de Lázaro.
A Bíblia diz que Ele chorou. Era Deus sim, mas humano também!
Chorou como qualquer verdadeiro humano chora.
Por que então eu teria que fingir que aquela dor de Vivi era coisa apenas de criança?
Educadora sim, mas humana também.
E chorei com vontade junto a ela. A ponto de ela parar antes e me consolar...
E ali, sentadas no chão do pátio da escola, enquanto outras coisas tão importantes quanto isso aconteciam na sala da direção, nas salas de aula e no terreno das aulas de técnicas agrícolas, eu estava no chão ensinando a uma aluna em sofrimento que adulto também sofre, também chora, também precisa de consolo...
Fizemos então um trato. Só iríamos chorar juntas a partir dali. Se eu não estivesse chorando, ela precisava se controlar para não despertar em mim a vontade de chorar também. E se ela não estivesse chorando era eu quem teria que me controlar. Se não conseguíssemos então choraríamos juntas sempre.
Ela me passou aquele olhar singelo misturado com sorriso e lágrimas e disse:
_ Prometo. Mas eu não gosto de ver você chorar.
_ Eu também não gosto de ver você chorar Vivi. Vou chorar junto com você toda vez.
Então, daí em diante, ela sorria e me abraçava alegre a cada vez que nos encontrávamos.
_Vai chorar hoje? Perguntava eu, brincando.
_Não pró. Se eu chorar você chora.
Vários alunos voltaram para casa por causa da saudade.
Eu também não suportei mais de três anos a saudade da família e voltei para a minha terra, mas Vivi se adaptou ao ritmo de um mês na escola e dois em casa e concluiu o seu curso de ensino fundamental até á 4ª série quatro anos depois.
Ela é uma das recordações que trago na memória com o maior carinho quando falo em saudades, ou quando me vejo chorando sozinha.

0 Comments:

Post a Comment

Links to this post:

Create a Link

<< Home