5.5.06

Como é que esse bicho anda?


_ Como é que esse bicho anda?
_ Tem um negócio chamado de motor meu bem.
_ Tô com medo!!!
_ Segure a minha mão.
_ Como é o nome disso?
_ Ônibus meu amor, o nome disso é ônibus.
Foi assim que conheci Henrique (nome fictício), um menino muito especial!
Era a primeira vez que estava entrando em um carro que não era puxado por cavalos, burros ou jegues. Estava chorando muito, visivelmente assustado, indo para a escola pela primeira vez. Amei-o tanto naquele momento, sem sequer imaginar o quanto ele iria ser um importante desafio e aprendizado na minha vida.
Henrique tinha 9 anos, vivia mais no meio da mata do que em casa. Por isso ao chegar na escola, gostava de fugir para a área verde, onde subia ligeiramente nas árvores, coisa que mais lhe proporcionava prazer, seguida da hora da refeição, é claro. Era uma criança visivelmente subnutrida.
A escola ainda estava em obras, e a área verde estava sendo trabalhada. Havia um trator em movimento na área e ele colocava a própria vida em risco indo na direção do trator inocentemente, correndo de um lado para o outro alegremente. Ignorava nossos chamados. Tínhamos que ir buscá-lo e correr atrás dele até o alcançarmos e trazê-lo com firmeza, enquanto se debatia querendo voltar.
Dependendo do momento, ele se mostrava dócil ou agressivo, atraente ou repulsivo, meigo ou hostil. Era difícil saber quando ele queria ou não a nossa aproximação. Às vezes nos abraçava e elogiava e às vezes corria dizendo palavrões.
Por não conhecer as normas básicas de educação e higiene que utilizamos, Henrique passava na frente dos outros na fila, soltava gases na fila do refeitório, brigava muito e batia nos colegas, mordia as pessoas (inclusive a professora), afastava os que tentavam aproximar-se dele, pois colocava apelidos com críticas à aparência das pessoas, sem qualquer preocupação com os critérios impostos pela etiqueta urbana. Confesso, honestamente, que em muitos momentos eu também não queria ficar perto dele, mas era uma das responsáveis em promover a sua integração e acolhimento e tinha a desafiante missão de ajudá-lo a viver bem no internato, a tratar bem as pessoas e as coisas e a se interessar pelas aulas formais.
Conseguir que ele ficasse sentado por 5 minutos em uma sala de aula era uma tarefa quase impossível. Comportava-se muito estranhamente. Às vezes, rolava no chão como uma cobra, tomava os materiais dos colegas para ele, pulava subitamente as janelas da sala de aula. A sua professora, Letícia, uma educadora cristã competente e persistente, buscava promover meios diversos para conquistar seu interesse pela leitura e escrita, e melhorar a sua oralidade, pois ele expressava-se com dificuldade e nunca havia sequer visto um lápis ou um papel.
Ele era um desafio à nossa competência, ao nosso amor, à nossa capacidade de promover a inclusão, de aceitar bem a ovelha mais frágil do rebanho, pois era grande a tentação de nos livrarmos dela e Henrique chegou a ser levado de volta para casa, decisão aparentemente movida pela necessidade de atender bem às outras 99 ovelhas, e pela sensação de impotência diante do porte da tarefa.
Mas, graças à filosofia inclusiva e cristã, a Escola Estadual Rural Taylor Egídio não desistiu de Henrique e trouxe-o de volta. Hoje ele é um dos monitores dos alunos novos. E graças a ele, todos os educadores sentiram a necessidade de estudar mais sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, aprendemos que inclusão significa que os direitos são iguais para alunos diferentes e fomos todos desafiados à busca de novos conhecimentos visando a sua inclusão e a de outros que hoje chegam com histórias de vida e comportamentos semelhantes. Ninguém de fora!!!
Henrique nos levou à conversão em educadores, pessoas e cristãos melhores.

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