19.5.06

Quer que eu segure a sua mão, tia?

O lugar era cheio de montanhas e cachoeiras. A natureza exuberante nos deixava perplexos e a simplicidade das pessoas nos encantava. Estávamos na roça, procurando novos alunos para a Escola Rural de Jaguaquara.
Entramos na casa da família de Israel e Samuel. Sua mãe estava desejosa de vê-lo ir à escola, junto a seu irmão Israel, mas estava preocupada com a idéia de a escola ter uma pedagogia de alternância em que eles deveriam ficar no período de aulas no internato.
Procurávamos transmitir para ela e para as crianças toda a tranqüilidade com relação à segurança na escola. Percebíamos que havia muito amor e carinho naquela família e prometemos que na escola seus filhos também encontrariam um tratamento digno e carinhoso. Quando ela decidiu então abraçar a idéia, abraçamos as crianças já sentindo um enorme carinho e responsabilidade em relação a eles.
Então, pedimos para ela nos indicar outras famílias que tivessem crianças na idade escolar sem freqüentar a escola, e ela nos falou onde poderíamos encontrar e já pediu para seus filhos nos acompanharem até lá, pois achava que, sozinhos, nós não acertaríamos chegar na casa indicada.
O caminho era bastante estreito para os pés de adultos, mas subimos em fila indiana, em direção ao topo da montanha.
Na medida em que nós subíamos, eu ia ficando cada vez mais apavorada, pois a altura era muito grande. Senti medo. Samuelzinho e Israel olhavam para trás para ver a que distância nós estávamos e paravam para nos esperar quando percebiam que estávamos muito para trás. Num determinado momento Samuelzinho percebeu meu medo, parou, esperou que eu chegasse perto e perguntou:
_ Quer que eu segure sua mão, tia? Perguntou serenamente.
_ Quero sim, meu filho. Respondi sorrindo e um pouco envergonhada.
Ele passou a caminhar mais devagar, na minha frente e com o braço para trás segurando com firmeza a minha mão.
Chegamos ao destino e ao voltar eu novamente precisei segurar naquela mãozinha para descer sem medo, evitando olhar a altura em que estávamos.
Foi um grande pequenino amigo que segurou minha mão numa hora delicadamente difícil
Naquela experiência concluí que como educadores deveríamos agir sempre como Samuelzinho, apontando o caminho que conhecemos por experiência própria, andando na frente, mas voltando quando necessário para não deixar ninguém para trás e ao percebermos a fragilidade dos caminhantes, conduzi-los serenamente transmitindo amor e segurança, sempre dispostos a dar a mão.

12.5.06


Posso chorar junto com você?



Vivi chegou ao internato a contra-gosto. Oriunda de uma família de poucas condições econômicas, mas esbanjadora em afetos, ela não conseguia superar a saudade de casa.
Era uma aluna que parecia nem ter idade para estar na escola, por ser tão pequenina e tão dependente.
Ela nos sensibilizava muito com seu choro incessante, uma tristeza que parecia não ter fim. Eu também estava com muita saudade de meus pais e meus irmãos que moravam na capital e que eu tinha poucas oportunidades de visitar. Necessitava ser forte emocionalmente, o suficiente para conseguir ajudá-la. Mas havia dias em que a carência emocional dela me mobilizava tanto...
_ Posso chorar junto com você Vivi? Perguntei com sinceridade.
_ Buáááááááá!!! Continuou ela, e me abraçou.
_ Buááááá!!!! Chorei junto com ela.
O abraço se tornou ainda mais forte!
Lembrei de Jesus diante do momento triste de Marta e Maria, com a morte de Lázaro.
A Bíblia diz que Ele chorou. Era Deus sim, mas humano também!
Chorou como qualquer verdadeiro humano chora.
Por que então eu teria que fingir que aquela dor de Vivi era coisa apenas de criança?
Educadora sim, mas humana também.
E chorei com vontade junto a ela. A ponto de ela parar antes e me consolar...
E ali, sentadas no chão do pátio da escola, enquanto outras coisas tão importantes quanto isso aconteciam na sala da direção, nas salas de aula e no terreno das aulas de técnicas agrícolas, eu estava no chão ensinando a uma aluna em sofrimento que adulto também sofre, também chora, também precisa de consolo...
Fizemos então um trato. Só iríamos chorar juntas a partir dali. Se eu não estivesse chorando, ela precisava se controlar para não despertar em mim a vontade de chorar também. E se ela não estivesse chorando era eu quem teria que me controlar. Se não conseguíssemos então choraríamos juntas sempre.
Ela me passou aquele olhar singelo misturado com sorriso e lágrimas e disse:
_ Prometo. Mas eu não gosto de ver você chorar.
_ Eu também não gosto de ver você chorar Vivi. Vou chorar junto com você toda vez.
Então, daí em diante, ela sorria e me abraçava alegre a cada vez que nos encontrávamos.
_Vai chorar hoje? Perguntava eu, brincando.
_Não pró. Se eu chorar você chora.
Vários alunos voltaram para casa por causa da saudade.
Eu também não suportei mais de três anos a saudade da família e voltei para a minha terra, mas Vivi se adaptou ao ritmo de um mês na escola e dois em casa e concluiu o seu curso de ensino fundamental até á 4ª série quatro anos depois.
Ela é uma das recordações que trago na memória com o maior carinho quando falo em saudades, ou quando me vejo chorando sozinha.

5.5.06

Como é que esse bicho anda?


_ Como é que esse bicho anda?
_ Tem um negócio chamado de motor meu bem.
_ Tô com medo!!!
_ Segure a minha mão.
_ Como é o nome disso?
_ Ônibus meu amor, o nome disso é ônibus.
Foi assim que conheci Henrique (nome fictício), um menino muito especial!
Era a primeira vez que estava entrando em um carro que não era puxado por cavalos, burros ou jegues. Estava chorando muito, visivelmente assustado, indo para a escola pela primeira vez. Amei-o tanto naquele momento, sem sequer imaginar o quanto ele iria ser um importante desafio e aprendizado na minha vida.
Henrique tinha 9 anos, vivia mais no meio da mata do que em casa. Por isso ao chegar na escola, gostava de fugir para a área verde, onde subia ligeiramente nas árvores, coisa que mais lhe proporcionava prazer, seguida da hora da refeição, é claro. Era uma criança visivelmente subnutrida.
A escola ainda estava em obras, e a área verde estava sendo trabalhada. Havia um trator em movimento na área e ele colocava a própria vida em risco indo na direção do trator inocentemente, correndo de um lado para o outro alegremente. Ignorava nossos chamados. Tínhamos que ir buscá-lo e correr atrás dele até o alcançarmos e trazê-lo com firmeza, enquanto se debatia querendo voltar.
Dependendo do momento, ele se mostrava dócil ou agressivo, atraente ou repulsivo, meigo ou hostil. Era difícil saber quando ele queria ou não a nossa aproximação. Às vezes nos abraçava e elogiava e às vezes corria dizendo palavrões.
Por não conhecer as normas básicas de educação e higiene que utilizamos, Henrique passava na frente dos outros na fila, soltava gases na fila do refeitório, brigava muito e batia nos colegas, mordia as pessoas (inclusive a professora), afastava os que tentavam aproximar-se dele, pois colocava apelidos com críticas à aparência das pessoas, sem qualquer preocupação com os critérios impostos pela etiqueta urbana. Confesso, honestamente, que em muitos momentos eu também não queria ficar perto dele, mas era uma das responsáveis em promover a sua integração e acolhimento e tinha a desafiante missão de ajudá-lo a viver bem no internato, a tratar bem as pessoas e as coisas e a se interessar pelas aulas formais.
Conseguir que ele ficasse sentado por 5 minutos em uma sala de aula era uma tarefa quase impossível. Comportava-se muito estranhamente. Às vezes, rolava no chão como uma cobra, tomava os materiais dos colegas para ele, pulava subitamente as janelas da sala de aula. A sua professora, Letícia, uma educadora cristã competente e persistente, buscava promover meios diversos para conquistar seu interesse pela leitura e escrita, e melhorar a sua oralidade, pois ele expressava-se com dificuldade e nunca havia sequer visto um lápis ou um papel.
Ele era um desafio à nossa competência, ao nosso amor, à nossa capacidade de promover a inclusão, de aceitar bem a ovelha mais frágil do rebanho, pois era grande a tentação de nos livrarmos dela e Henrique chegou a ser levado de volta para casa, decisão aparentemente movida pela necessidade de atender bem às outras 99 ovelhas, e pela sensação de impotência diante do porte da tarefa.
Mas, graças à filosofia inclusiva e cristã, a Escola Estadual Rural Taylor Egídio não desistiu de Henrique e trouxe-o de volta. Hoje ele é um dos monitores dos alunos novos. E graças a ele, todos os educadores sentiram a necessidade de estudar mais sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, aprendemos que inclusão significa que os direitos são iguais para alunos diferentes e fomos todos desafiados à busca de novos conhecimentos visando a sua inclusão e a de outros que hoje chegam com histórias de vida e comportamentos semelhantes. Ninguém de fora!!!
Henrique nos levou à conversão em educadores, pessoas e cristãos melhores.