28.4.06

Eram 100 ovelhinhas...


Domingo era o dia mais esperado pelas 100 crianças. Dia em que os pais e parentes podiam visitá-las, trazer lanches, supri-las de abraços e beijos familiares. Dia também em que nos reuníamos para o culto, com duração de 1 hora, no auditório da escola. Era depois do café, antes da chegada das visitas.
A enfermeira e uma auxiliar nos ajudavam a conduzi-las em fila até o auditório. Não era muito fácil dirigir um culto e ensinar uma história bíblica para 100 crianças que ainda não sabiam ler. Na época não havia na escola os recursos áudios-visuais que existem hoje, e as maiores gravuras bíblicas que conseguimos adquirir só alcançavam a visão dos que sentavam bem na frente...
Naquele domingo queríamos ensinar-lhes sobre o amor de Deus. Discretamente, escondi atrás das cortinas do palco uma das crianças bem pequenas, de quem os colegas não iriam sentir falta, imediatamente, por ser bem tranqüila e tímida, e só cochichei para ela o seguinte:
_ Fique sentadinha aí até eu vir te buscar, certo? Você vai ser a artista principal de hoje...
Prontamente ela sorriu e obedeceu ficando quietinha por quase meia-hora ouvindo o início do culto atrás da cortina, em plena confiança.
Comecei o culto, cantamos muito, oramos juntos e chegou então o momento de contar a história bíblica.
Perguntei então para eles, conhecedores da zona rural, o que significava ser um pastor de ovelhas, quais os perigos que as ovelhas correm, como são as ovelhas, quais os cuidados que um pastor precisa ter, e eles levantavam a mão e iam dizendo o que sabiam. Aprendi tanto com eles nesse dia sobre as necessidades dos bichos e sobre os perigos da mata...
Falei então para eles que certo pastor tinha 100 ovelhas e amava muito cada uma delas. Todos os dias ele contava para ver se estavam todas ali protegidas e só depois ele ia dormir.
Perguntei a eles então quantas crianças estavam no auditório. Eles responderam que eram cem. Eu disse que queria conferir, como aquele pastor fazia. Pedi a eles que me ajudassem a contar e fui andando pelo auditório contando com eles.
Quando chegamos em 99, eu os assustei gritando:
_ Falta uma: Falta uma criança. O que pode ter acontecido?
Eles responderam:
_ Contamos errado...
_ Foi ao banheiro...
_ Fugiu do auditório...
_ E agora gente? O que eu devo fazer? Perguntei fingindo estar angustiada:
Eles disseram:
_ Procurar!
Saí então olhando debaixo dos bancos, subi na galeria do auditório, fui vasculhando atrás do piano. Havia 99 pares de olhos curiosos me seguindo e o som de risadinhas bem discretas. Enfim cheguei ao palco, fui atrás da cortina e gritei:
_ACHEI!
A risada foi escancarada. Curiosidade geral! Todos queriam saber quem era a “ovelha perdida”. Peguei a criança no colo e perguntei:
_ O que devo fazer com ela?
Eles responderam animadamente, quase todos falando ao mesmo tempo:
_ Dá um reio bem dado (surra na linguagem deles)!
_ Briga com ela pró!
_ Bota de castigo tia!
_ Manda embora!
Eles estavam bem movimentados, eufóricos e curiosos.




Então, abracei a criança bem carinhosamente, e, dessa vez precisando usar o microfone, falei mansamente:
_Minha querida ovelhinha, ela está tão machucada... É tão pequenina, precisa tanto de minha ajuda... Eu vou cuidar muito bem dela. Que bom que eu consegui encontrá-la em tempo. Já imaginaram se a onça chegasse antes?! Venha meu amor, nunca mais nada de ruim vai te acontecer. Vou protegê-la sempre. Você nunca não mais irá ficar longe de mim, está bem?
Olhei novamente para o auditório, pedi que ela sentasse junto a eles e indaguei:
_ Quantos são agora?
_ 100!
_ Nenhum perdido?
_ Não!
Li então o texto de João 3:16:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna.”

E expliquei com voz bem suave:
_É assim que Deus nos ama. Como um bom pastor. Não abre mão de nenhum de nós. Ninguém de fora. Ele fica feliz em ver suas ovelhas perto dele e sente falta quando uma se afasta. Nunca esqueçam: Cada um de vocês é tão importante para Deus que Ele deu a vida de seu Filho Jesus para conhecermos o tamanho do seu amor e do seu cuidado.
Alguns estavam visivelmente perplexos.
Saímos do auditório cantando o belo corinho:

O Senhor é o meu Pastor e nada me faltará.
Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte,
não temerei, não temerei, não temerei o mal....

20.4.06

Aprendiz Da Vida Rural

Nasci em Salvador, capital da Bahia, tive uma infância de criança urbana,
e pouquíssimo contato com a vida rural até chegar o ano 2000 quando
fui viver a experiência de morar em Jaguaquara- Ba.

Como sou assistente social, fui convidada a contribuir com a
Escola Estadual Rural Taylor Egídio recém criada, cuja proposta é alcançar
crianças da zona rural que têm dificuldades de ter acesso à educação formal.
Como assistente social, minhas funções eram de acolhimento, educação para a
cidadania, educação religiosa e proteção dessas crianças, pois elas ficam
internas na escola durante o período de aulas.
Eram 100 crianças de cada vez. Meninos e meninas. Hoje são mais de 200 de cada vez.
É difícil para a criança da roça, morar na cidade e viver num internato.
Alguns sofriam tanto com a saudade da família e da liberdade, que éramos
obrigados a devolvê-los às suas famílias com medo que adoecessem.
Mas sofríamos ao pensar que ao desistir eles estariam perdendo o acesso
à educação formal, agrária, religiosa, musical, emocional, lúdica e digital.



Minha benção tia Lucy...

“Deus te abençoe Israel, Deus te abençoe Gilmar, Deus te abençoe Viviane...”
Eram 100 vezes: “ Deus te abençoe...”

Vamos levantar gente!!!! Hoje será um dia maravilhoso!!! Vamos repetir???
Todos gritavam: Hoje será um dia maravilhoso!!!

E iam descendo das camas, dobrando os lençóis juntos, trocando as roupinhas, pegando as toalhas e a saboneteira para irem ao banho. Acompanhava cada passo deles ensinando as normas básicas de higiene pessoal, pois alguns ainda não sabiam como usar essas coisas de banheiro...

Quando todos estavam prontos, fazíamos a grande fila e recitávamos:
“Este é o dia que o Senhor fez, vamos nos alegrar nele.”
E cantávamos alegremente, caminhando para o refeitório:
“Um bom dia na presença do senhor, um bom dia na presença de Cristo o rei, que o Senhor sobre ti levante o rosto irmão, e te guarde para sempre, e te guarde eternamente e te guarde sempre em nome de Jesus.”
Fazíamos uma grande roda, de mãos dadas, comemorávamos os aniversários do dia e eu fazia uma oração espontânea em voz alta, que eles repetiam frase por frase, em atitude de profunda reverência a Deus.
Recitávamos juntos a divisa da Escola:
“O Senhor te guiará para sempre, tu serás como um jardim regado” Isaías 58:11
E cantávamos o hino oficial da Escola Rural:
“Plantando juntos nós seremos fortes, cantando juntos nós seremos bons, Anunciaremos a fraternidade e aprenderemos as demais lições!”
Faziam então a fila, pegavam suas bandejas com os alimentos e eram ensinados então a sentarem à mesa e a usar os talheres, a não desperdiçar os alimentos, a jogar o lixo no lixo.
Eu, uma cidadã urbana e aprendiz da vida rural , sentava cada dia com um grupo diferente para conversar enquanto tomávamos café, e eles falavam sobre a vida deles.
Passo a passo eu ia conhecendo cada dia mais um pouco sobre a realidade deles, sua linguagem, seus valores e conceitos sobre Deus, família, sexualidade, paz e amizade...
Era assim, enquanto ouvíamos essas coisas, respeitando os conhecimentos que eles já possuíam e que envolviam muitas crenças e superstições que fazem parte de sua idéia de religião, conhecendo a visão de si e do outro que eles traziam que íamos pouco a pouco apresentando para eles a mensagem cristã do amor de Deus por cada um, do amor que Deus quer que tenhamos um pelo outro, do cuidado que Deus quer que tenhamos com nossos corpos e a nossa necessidade de retribuirmos o amor e a graça de Deus para conosco com nossa dedicação integral a Ele, Único Caminho para a felicidade de urbanos e rurais.